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Marcos Resende Autores

Marcos Resende Autores

Baudelaire

A Música

A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

Rimbaud

No Cabaré Verde

Rimbaud

Às cinco horas da tarde Oito dias a pé, as botas rasgadas Nas pedras do caminho: em Charleroi arrio. — No Cabaré-Verde: pedi umas torradas Na manteiga e presunto, embora meio frio. Reconfortado, estendo as pernas sob a mesa Verde e me ponho a olhar os ingênuos motivos De uma tapeçaria. — E, adorável surpresa, Quando a moça de peito enorme e de olhos vivos — Essa, não há de ser um beijo que a amedronte! — Sorridente me trás as torradas e um monte De presunto bem morno, em prato colorido; Um presunto rosado e branco, a que perfuma Um dente de alho, e um chope enorme, cuja espuma Um raio vem dourar do sol amortecido



Leia mais: http://www.mensagenscomamor.com/poemas-e-poesias/poemas_de_rimbaud.htm#ixzz3gPrZTWYJ

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto 03.jpg

 
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Fábula de um Arquiteto

A arquitetura como construir portas,
de abrir. ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou das a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abril, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.
 

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece a manhã
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outrros galos
que com muitos outros galos se cruem
os filos de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo entre todos os galos.


Graciliano Ramos

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente,
a contra-pêlo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

 

Morte e Vida Severina
(Auto de Natal Pernambucano) 


O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

 O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,

deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco
havia com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA REDE,
AOS GRITOS DE "Ó IRMÃOS DAS ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS!
NÃO FUI EU QUEM MATEI NÃO!"

— A quem estais carregando, 
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.

— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,

sabeis como ele se chama
ou se chamava?

— Severino Lavrador,
irmão das almas,

Severino Lavrador,
mas já não lavra.
— E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,

onde foi que começou
vossa jornada?
— Onde a Caatinga é mais seca,
irmão das almas,

onde uma terra que não dá
nem planta brava.
— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
— E o que guardava a emboscada,
irmãos das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
— Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mais garantido é de bala,
mais longe vara.
— E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada. 
— E o que havia ele feito
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?
— Ter uns hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
— Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas,
que podia ele plantar
na pedra avara?
— Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
dos intervalos das pedras,
plantava palha.
— E era grande sua lavoura, irmãos das almas, 
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
— Tinha somente dez quadros,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
— E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
— Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
— E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente do chumbo
que tem guardada?
— Ao cemitério de Torres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.
— E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.
— Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.
— E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.
— Vou eu que a viagem é longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.
— Mais sorte tem o defunto
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.
— Toritama não cai longe,
irmãos das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.
— Partamos enquanto é noite,
irmãos das almas,
que é o melhor lençol dos mortos
noite fechada. 

O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR PORQUE SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE CORTOU COM O VERÃO

— Antes de sair de casa
aprendi a ladainha
das vilas que vou passar
na minha longa descida.
Sei que há muitas vilas grandes,
cidades que elas são ditas;
sei que há simples arruados,
sei que há vilas pequeninas,
todas formando um rosário
cujas contas fossem vilas,
todas formando um rosário
de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosário
até o mar onde termina,
saltando de conta em conta,
passando de vila em vila.
Vejo agora: não é fácil
seguir essa ladainha;
entre uma conta e outra conta,
entre uma e outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de planta e bicho vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.
Não desejo emaranhar
o fio de minha linha
nem que se enrede no pêlo
hirsuto desta caatinga.
Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
Tenho que saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Mas não vejo almas aqui,
nem almas mortas nem vivas;
ouço somente à distância
o que parece cantoria.
Será novena de santo,
será algum mês-de-Maria;
quem sabe até se uma festa
ou uma dança não seria?

NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO,
ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA, VAI PARODIANDO A PALAVRAS DOS CANTADORES:

— Finado Severino,
quando passares em Jordão
e o demônios te atalharem
perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera,
 capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.
— Finado Severino, etc...
— Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.
— Finado Severino, etc..
— Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves.
— Uma excelência
dizendo que a hora é hora.
— Ajunta os carregadores
que o corpo quer ir embora.
— Duas excelências...
— ... dizendo é a hora da plantação.
— Ajunta os carreadores...
—... que a terra vai colher a mão. 

CANSADO DA VIAGEM, O RETIRANTE PENSA INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES
E PROCURAR TRABALHO, ALI, ONDE SE ENCONTRA:

— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida Severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas por que
parar aqui eu não podia
e como o Capibaribe
interromper minha linha?
ao menos até que as águas
de uma próxima invernia
me levem direto ao mar
ao refazer sua rotina?
Na verdade, por uns tempos,
parar aqui eu bem podia
e retomar a viagem
quando vencesse a fadiga.
Ou será que aqui cortando
agora a minha descida
já não poderei seguir
nunca mais em minha vida?
(será que a água destes poços
é toda aqui consumida
pelas roças, pelos bichos,
pelo sol com suas línguas?
será que quando chegar
o rio da nova invernia
um resto da água no antigo
sobrará nos poços ainda?)
Mas isso depois verei:
tempo há para que decida;
primeiro é preciso achar
um trabalho de que viva.
Vejo uma mulher na janela,
ali, que se não é rica,
parece remediada
ou dona de sua vida:
vou saber se de trabalho
poderá me dar notícia.

DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA 
QUE DEPOIS, DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ:

— Muito bom dia, senhora,
que nessa janela está;
sabe dizer se é possível algum trabalho encontrar?
— Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar;
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
— Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má;
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
— Isso aqui de nada adianta,
pouco existe o que lavrar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia por lá?
— Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há;
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.
— Também de pouco adianta,
nem pedra há aqui que amassar;
diga-me ainda, compadre,
que mais fazia por lá?
— Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar;
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.
— Esses roçados o banco
já não quer financiar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia lá?
— Melhor do que eu ninguém
sabe combater, quiçá,
tanta planta de rapina
que tenho visto por cá.
— Essas plantas de rapina
são tudo o que a terra dá;
diga-me ainda, compadre,
que mais fazia por lá?
— Tirei mandioca de chão
que o vento vive a esfolar
e de outras, escalavradas
pela seca faca solar.
— Isto aqui não é Vitória
nem é Glória do Goitá;
e além da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?
— Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear;
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.
— Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, oxalá!
mas, diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
— Em qualquer das cinco tachas
de um bangüê sei cozinhar;
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.
— Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já;
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?
— Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá;
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.
— Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.
— Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.
— Essa vida por aqui
é coisa familiar;
mas, diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?
— Já velei muitos defuntos,
na serra é coisa vulgar;
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.
— Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.
— Agora, se me permite,
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?
— Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:
como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.
— E ainda se me permite
que lhe volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?
— É, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região,
rezadora titular.
— E ainda se me permite,
mais outra vez indagar:
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?
— De um raio de muitas léguas,
vem gente aqui me chamar;
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.
— E se pela última vez,
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?
— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.

O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA,
QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM:

— Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista. 
Os rios que correm aqui
têm a água vitalícia.
Cacimbas por todo lado;
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira.
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
Mas, não avisto ninguém,
só folhas de cana fina;
somente ali à distância
aquele bueiro de usina;
somente naquela várzea
um banguê velho em ruína.
Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
e aquele cemitério ali,
branco na verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.

ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO
E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO, OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO


— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.
— Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

— Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra a tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo)
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos)
— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).
— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.

— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha,
— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.

— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.
— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.

— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS
PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE 


— Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
não foi a grande cobiça;
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta;
se na serra vivi vinte,
se alcancei lá tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estendê-la um pouco ainda.
Mas não senti diferença
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferença é a mais mínima.
Está apenas em que a terra
é por aqui mais macia;
está apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois é igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de caliça,
a vida arde sempre
com a mesma chama mortiça.
Agora é que compreendo
por que em paragens tão ricas
o rio não corta em poços
como ele faz na Caatinga:
vive a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter,
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia;
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.

CHEGANDO AO RECIFE O RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR
AO PÉ DE UM MURO ALTO E CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO,
A CONVERSA DE DOIS COVEIROS

— O dia hoje está difícil;
não sei onde vamos parar.
Deviam dar um aumento,
ao menos aos deste setor de cá.
As avenidas do centro são melhores,
mas são para os protegidos:
há sempre menos trabalho
e gorjetas pelo serviço;
e é mais numeroso o pessoal
(toma mais tempo enterrar os ricos).
— Pois eu me daria por contente
se me mandassem para cá.
Se trabalhasses no de Casa Amarela
não estarias a reclamar.

De trabalhar no de Santo Amaro,
deve alegrar-se o colega
porque parece que a gente
que se enterra no de Casa Amarela
está decidida a mudar-se
toda para debaixo da terra.
— É que o colega ainda não viu
o movimento: não é o que se vê.
Fique-se por aí um momento
e não tardarão a aparecer
os defuntos que ainda hoje
vão chegar (ou partir, não sei).
As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,
são como o porto do mar;
não é muito ali o serviço:
no máximo um transatlântico
chega ali cada dia,
com muita pompa, protocolo,
e ainda mais cenografia.
Mas, este setor de cá
é como a estação dos trens:
diversas vezes por dia chega o comboio de alguém.
— Mas se teu setor é comparado
à estação central dos trens,
o que dizer de Casa Amarela,
onde não pára o vaivém?
Pode ser uma estação,
mas não estação de trem:
será parada de ônibus,
com filas de mais de cem.
— Então por que não pedes,
já que és de carreira, e antigo,
que te mandem para Santo Amaro
se achas mais leve o serviço?
Não creio que te mandassem
para as belas avenidas
onde estão os endereços
e o bairro da gente fina:
isto é, para o bairro dos usineiros,
dos políticos, dos banqueiros,
e no tempo antigo, dos banguezeiros
(hoje estes se enterram em carneiros);
bairro também dos industriais,
dos membros das associações patronais
e dos que foram mais horizontais
nas profissões liberais.
Difícil é que consigas
aquele bairro, logo de saída.
— Só pedi que me mandasse
para as urbanizações discretas,
com seus quarteirões apertados,
com suas cômodas de pedra.
— Esse é o bairro dos funcionários,
inclusive extranumerários,
contratados e mensalistas
(menos os tarefeiros e diaristas).
Para lá vão os jornalistas,
os escritores, os artistas;
ali vão também os bancários,
as altas patentes dos comerciários,
os lojistas, os boticários,
os localizados aeroviários
e os de profissões liberais
que não se liberaram jamais.
— Também um bairro dessa gente
temos no de Casa Amarela:
cada um em seu escaninho,
cada um em sua gaveta,
com o nome aberto na lousa
quase sempre em letras pretas.
Raras as letras douradas,
raras também as gorjetas.
— Gorjetas aqui, também,
só dá mesmo a gente rica,
em cujo bairro não se pode
trabalhar em mangas de camisa;
onde se exige quépi
e farda engomada e limpa.
— Mas não foi pelas gorjetas, não,
que vim pedir remoção:
é porque tem menos trabalho
que quero vir para Santo Amaro;
aqui ao menos há mais gente
para atender a freguesia,
para botar a caixa cheia
dentro da caixa vazia.
— E que disse o Administrador,
se é que te deu ouvido?
— Que quando apareça a ocasião
atenderá meu pedido.
— E do senhor Administrador
isso foi tudo que arrancaste?
— No de Casa Amarela me deixou,
mas, me mudou de arrabalde.
— E onde vais trabalhar agora,
qual o subúrbio que te cabe?
— Passo para o dos industriários,
que também é o dos ferroviários,
de todos os rodoviários
e praças-de-pré dos comerciários.
— Passas para o dos operários,
deixas o dos pobres vários;
melhor: não são tão contagiosos
e são muito menos numerosos.
— É, deixo o subúrbio dos indigentes
onde se enterra toda essa gente
que o rio afoga na preamar
e sufoca na baixa-mar.
— É a gente sem instituto,
gente de braços devolutos;
são os que jamais usam luto
e se enterram sem salvo-conduto.
— É a gente dos enterros gratuitos
e dos defuntos ininterruptos.
— É a gente retirante
que vem do Sertão de longe.
— Desenrolam todo o barbante
e chegam aqui na jante.
— E que então, ao chegar,
não têm mais o que esperar.
— Não podem continuar
pois têm pela frente o mar.
— Não têm onde trabalhar
e muito menos onde morar.
— E da maneira em que está
não vão ter onde se enterrar.
— Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha;
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterrá-los em terra seca.
— Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.
— O rio daria a mortalha
e até um macio caixão de água;
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.
— E não precisava dinheiro,
e não precisava coveiro,
e não precisava oração
e não precisava inscrição.
— Mas o que se vê não é isso:
é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia;
morre gente que nem vivia.
— E esse povo de lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando,
cemitério esperando.
— Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens;
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.

O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE

— Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita.
Sabia que no rosário
de cidade e de vilas,
e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
não seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre pás e enxadas
foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu braço esperariam.
Mas que se este não mudasse
seu uso de toda vida,
esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,
ou meu aluguel com a vida.
E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de anhinga,
e aquele acompanhamento
de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).

APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS
QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO


— Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabes me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?
— Severino, retirante, jamais o cruzei a nado;
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega o abdome,
basta que tenha fundura igual à de sua fome.
— Severino, retirante
pois não sei o que lhe conte;
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte;
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço;
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
— Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxão das águas
não é melhor se entregar?
— Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alarga
e devasta a terra inteira.
— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.
— Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?
— Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
— Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM, VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS, ETC

— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a maré
esta noite não baixou.
— Foi por ele que a maré
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro não voou.
— E a alfazema do sargaço,
ácida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.
— E a língua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaçal.


— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.
— Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.
— E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que não irradia.
— E este rio de água,
cega, ou baça,
de comer terra,
que jamais espelha o céu,
hoje enfeitou-se de estrelas.

COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

— Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
— Minha pobreza tal é
que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui todos são irmãos,
de leite, de lama, de ar.
— Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago este papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
— Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Cerro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.

— Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta corrido e de estalo.
— Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.
— Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
— Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.

— Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
— Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
— Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
— Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.

— Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
— Siris apanhados no lamaçal
que há no avesso da rua Imperial.
— Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
— Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.

FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS VIZINHOS

— Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito,
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinarão
os anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida;
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris;
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.

— Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas;
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.

FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES, ETC

— De sua formosura já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
— De sua formosura
deixai-me que diga:

é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
— Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
— Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.

— De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

— É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.
— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

— E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE DE NADA

— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina. 


FIM 

 

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João Cabral de Melo Neto (Recife, 09.01.1920 — Rio de Janeiro, 09.10.1999), poeta e diplomata.
Sua obra poética, de uma tendência surrealista até a poesia popular, caracterizada pelo rigor estético, com poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes, inaugurou uma nova forma de fazer poesia no Brasil. 
Foi agraciado com vários prêmios, entre eles o Prêmio Neustadt, tido como o "Nobel Americano", sendo o único brasileiro galardoado com tal distinção. Quando morreu, em 99, especulava-se de que era forte candidato ao Nobel de Literatura.

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Thiago de Mello

Thiago de Mello 02.jpg

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FAZ ESCURO, MAS EU CANTO


Madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre
agora vale a alegria
que se constroi dia a dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser
sinto no ar
tempo de trigo maduro
vai ser tempo de ceifar
Já se levantam prodígios
chuva azul no milharal, 
estala em flor o feijão
um leite novo minando
no meu longe seringal.

Madrugada da esperança
já é quase tempo de amor
colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana
minha alma no seu pendão.

Madrugada Camponesa
faz escuro (já nem tanto)
vale a pena trabalhar
faz escuro, mas eu canto
porque a manhã vai chegar.

  
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Rei Salomão - Cântico dos Cânticos

Adan Buzo.jpg


Marcos Resende Especial
 ◦
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Ela

Ah! Beija-me com os beijos de tua boca!
Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho, 
e suave é a fragrância de teus perfumes;
o teu nome é como um perfume derramado: por isto amam-te as jovens. 
Leva-me contigo.!
O rei introduziu-me nos seus aposentos.
Exultaremos de alegria e de júbilo em ti.
Tuas carícias nos inebriarão mais que o vinho.
Quanta razão há de te amar!

Ela

Eu sou trigueira, mas formosa, ó filhas de Jerusalém.
Sou morena como as tendas de cedar,
como os pavilhões de Salmão.
Não repareis em eu ser morena,
porque o sol me mudou a cor.

 

Ela

Dize-me, ó amado de minha alma,
onde é que apascentas o teu gado,
onde o levas a repousar ao meio-dia
para que eu não ande vagueando
junto aos rebanhos dos teus companheiros.

Ele

Se não o sabes,
ó formosíssima entre as mulheres,
vai, segue as pisadas da ovelhas,
e apascenta os teus cabritos
junto às cabanas dos pastores.

À minha cavalaria atrelada aos carros do Faraó,
eu te comparei, amiga minha.
tuas faces são graciosas entre os brincos,
o teu pescoço, a dos mais ricos colares.
Eu te farei brincos de ouro,
marchetados de prata.

 

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Ela

Enquanto o o rei descansa em seu divã,
meu nardo exala o seu perfume.
O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra,
que repousa entre os meus seios.
O meu amado é para mim como um cacho de uvas
colhido nas vinhas de Engadi

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Ele

Como és formosa, amiga minha!
Como és bela!
Os teus olhos são vivos como o das pombas.

 

Ela

Como es formoso, amado meu! Como és encantador!
O nosso leito é de flores;
as vigas de nossa casa são de cedro,
o nosso teto, de cipreste.

 

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Ela

Sou o narciso de saron,
o lírio dos vales.

 

Ele

Como o lirio entre os espinhos,
assim é a minha amiga entre as donzelas.

 

Ela

Como a macieira entre as árvores dos bosques,
assim é o meu amado entre os jovens.
Gosto de me sentar à sua sombra, daquele a quem tanto tinha desejado,
e o seu fruto é doce à minha boca.
Ele introduziu-me num celeiro,
e o estandarte que levanta sobre mim é o de amor.

Restaurou-me com tortas de uvas,
fortaleceu-me com maçãs,
porque desfaleço de amor.

A sua mão esquerda está debaixo de minha cabeça.
E a sua direita, abraça-me.

 

Ele

Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, 
pelos gazelas e corças dos campos,
que não perturbeis nem acordeis a minha amada,
até que ela o queira.

Ela

Oh, esta é a voz do meu amado!
Ei-lo que aí vem, saltando sobre os montes,
atravessando os outeiros.
O meu amado é semelhante a um gamo e a uma gazela das montanhas.
Ei-lo que está por detrás da nossa parede.
Olho pela janela,
espreito pelas grades.
Eis o meu amado que me diz:
— "Levanta-te, apressa-te, amiga minha,
formosa minha, e vem.
Porque já passou o inverno,
já se foram e cessaram de todo as chuvas.
Apareceram as flores na nossa terra,
chegou o tempo da poda;
voltou o tempo das canções.
Em nossas terras já se ouve a voz da rola. 
a figueira começou a dar os seus primeiros figos;
ouviu-se na nossa terra a voz da rola;
as vinhas e flor espalharam o seu perfume.
Levanta-te, minha minha, formosa minha, e vem:
pomba minha, tu que te recolhes nas aberturas da pedra,
na concavidade do muro,
mostra-me a tua face,
ressoe a tua voz aos meus ouvidos,
porque a tua voz é doce,
e a tua face é bela."

Ela

O meu amado é para mim e eu para ele.
Apascenta o seu rebanho entre os lírios
até que chegue o fresco do dia
e declinem as sobras.
Volta; sê semelhante, amado meu,
ao gamo e à gazela
que correm sobre os montes de Beter."

Ela

Durante a noite, no meu leito,
busquei aquele a quem ama a minha alma.
Busquei-o e não o achei.
Vou me levantar e percorrer a cidade.
Buscarei pelas ruas e praças públicas
aquele a quem ama a minha alma.
Busquei-o e não o achei.

Os guardas que rondam a cidade encontraram-me
e eu lhes disse:
— "Vistes, porventura aquele a quem ama a minha alma?"

Mas, eis que tendo-os ultrapassado um pouco,
encontrei aquele a quem ama a minha alma
Agarrei-me a ele, e não o largarei mais,
até o introduzir em casa de minha mãe
e levá-lo ao quarto daquela que me concebeu.

Ele

Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém,
pelos gamos e gazelas do campo,
que não perturbei nem façais a minha amada despertar
até que ela o queira.

 

Que é aquilo que sobe do deserto como colunas de fumaça,
exalando o perfume de mirra e de incenso, e de todos os aromas dos mercadores?
É a liteira de Salomão, escoltada por sessenta guerreiros, sessenta valentes de Israel; 
todos hábeis manejadores de espada, e exercitados no combate;
cada um deles leva a espada ao lado por causa dos terrores noturnos. 
O rei Salomão mandou fazer para si uma liteira de madeira do Líbano. 
Suas colunas são feitas de prata, seu encosto de ouro, seu assento de púrpura.
O interior é bordado pelo amor das filhas de Jerusalém. 
Saí, ó filhas de Sião, contemplai o rei Salomão,
ostentando o diadema recebido de sua mãe no dia de suas núpcias,
no dia da alegria de seu coração.

Ele

Oh, como és formosa, amiga minha, como és formosa
por detrás do teu véu!
Os teus olhos são como os das pombas
os teus cabelos são como um rebanhos de cabras
descendo impetuosas pela montanha de Galaad.
Os teus dentes são como s rebanhos das ovelhas tosquiadas,
todas com dois cordeirinhos gêmeos
e nenhuma há estéril entre elas.
Os teus lábios são como uma fita de escarlate,
e o teu falar é doce.
Assim como é o vermelho da romã partida,
assim são as tuas faces

O teu pescoço é direito como a torre de Davi
e dele estão pendentes mil escudos
e toda a armadura dos herois
Os teus dois seios são como dois filhinhos gêmeos de uma gazela
pastando entre os lírios.

Antes que sopre a brisa do dia,
e se estendam as sombras,
irei ao monte da mirra,
e à colina do incenso.

Toda és formosa, amiga minha,
e não há mácula em ti. 

Vem do Líbano, esposa minha,
vem Líbano, vem!
E serás coroada.
Vem dos cumes do Amaná, do cume do Sanir e do Hermon,
das cavernas dos leões, dos esconderijos dos leopardos.
Tu me fazes delirar, minha irmã, minha esposa, 
tu me fazes delirar com um só dos teus olhares.
Como são deliciosas as tuas carícias, minha irmã, minha esposa!
As tuas caricias são mais suaves do que o vinho
e o odor dos teus perfumes excede o de todos os aromas! 
Teus lábios, ó esposa, são como um favo que destila o mel;
há mel e leite sob a tua língua.
O perfume de tuas vestes é como o perfume do incenso. 


És um jardim fechado, minha irmã, minha esposa,
uma nascente fechada, uma fonte selada. 
As tuas plantas são como um jardim de delícias,
cheio de todas as qualidades de romãs,
de frutos de cipre e de nardo, açafrão, canela e cinamomo
com todas as árvores de incenso, mirra e aloés,
com os balsámos mais preciosos. 
És a fonte de meu jardim,
uma fonte de água viva,
um riacho que corre do Líbano.

Vento do meio-dia,
levanta-te, e sopra no meu jardim, vento do norte e vento do sul. 
Sopra no meu jardim para que se espalhem os meus perfumes.

Ela

Venha o  meu amado para o m meu jardim,
e coma o fruto das tuas macieiras.

Ele
Eu vim para o meu jardim, irmã minha, amada;
colhi a minha mirra com os meus perfumes;
comi o favo com o meu mel;
bebi o meu vinho com o meu leite .
Amigos, comei, bebei, inebriai-vos ó caríssimos.

Ela

Eu durmo, mas o meu coração vela.
Eis a voz do meu amato, que bate, dizendo:
— "Abre-me, irmã minha, amiga minha, pomba minha,
pomba imaculada minha,
porque a minha cabeça está cheia de orvalho,
e os anéis do meu cabelo estão cheios de gotas da noite."
Eu respondi-lhe: — "Despojai-me da minha túnica,
e hei de vesti-la novamente?
Lavei os meus pés e hei de tornar a sujá-los?"
O meu amado meteu a sua mão pela abertura da porta,
e as minhas entranhas estremeceram-se com o ruído que ele fez.

Levantei-me para abrir ao meu amado;
as mihas mãos destilaram mirra,
e os meus dedos estavam cheios da mirra mais preciosa.
Abri a minha porta ao meu amado, tirando-lhe o ferrolho,
mas, ele já se tinha ido, já tinha desaparecido.
A mnha alma tinha ficado fora de si a som da sua voz:
busquei-o, mas não o achei!  Procurei-o e não o encontrei; chamei-o, mas ele não respondeu.
Os guardas encontraram-me, quando faziam sua ronda na cidade.
Bateram-me, feriram-me,
arrancaram-me o manto os guardas das muralhas.

Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, 
se encontrardes o meu amigo, que lhe haveis de dizer?
Dizei-lhe que estou enferma de amor. 


Mulheres
Que tem o teu bem-amado a mais que os outros amados, ó mais bela das mulheres?
Que tem o teu bem-amado a mais que os outros,
para que assim nos conjures a que o procueremos?

Ela

Meu amado é forte e corado, distingue-se entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro puro, seus cachos flexíveis são negros como o corvo. 
Seus olhos são como pombas à beira dos regatos, banhando-se no leite, pousadas nas praias. 
Suas faces são um jardim perfumado onde crescem plantas odoríferas.
Seus lábios são lírios que destilam a mirra mais preciosa. 
As suas mãos são de ouro incrustadas de pedrarias.
Seu corpo é de marfim recoberto de safiras.
Suas pernas são colunas de alabastro erguidas sobre pedestais de ouro puro.
Seu aspecto majestso é como o do Líbano, imponente como os cedros. 
Sua boca é cheia de doçura, tudo nele é para se desejar.
Assim é o meu amado, tal é o meu amigo, filhas de Jerusalém!

Mulheres
Para onde foi o teu amado, ó mais bela das mulheres?
Para onde se retirou o teu amigo?
Nós o buscaremos contigo.

Ela

O meu bem-amado desceu ao seu jardim,
aos canteiros das plantas aromáticas;
para se apascentar no jardim, e colher lírios.
Eu sou do meu amado e meu amado é todo meu.
Ele, que se apascenta entre os lírios.

Ele

Formosa és, amiga minha,
suave e sublime como Jerusalém,
terrível como um exército em ordem de batalha. 
Desvia de mim os teus olhos,
porque eles me fizeram sair fora de mim.
Os teus cabelos são como um rebanho de cabras
descendo impetuosamente pelas encostas de Galaad. 
Teus dentes são como um rebanho de ovelhas
todas com dois cordeirinhos gêmeos.
Como a casca da 
romã, assim são as tuas faces,
sem falar no que está escondido dentro de ti.
São sessenta as rainhas
e oitenta as esposas,
e inumeráveis as donzelas; 
uma, porém, é a minha pomba, uma só a minha perfeita;
ela é a única para sua mãe e a única para mim.
Ao vê-la, as donzelas proclamaram-na bem-aventurada,
viram-na as rainhas e as esposas e deram-lhe muitos louvores.
 Quem é esta que vem como a aurora,
bela como a lua, brilhante como o sol,
terrível como um exército em ordem de batalha?
Eu desci ao jardim das nogueiras para ver os frutos dos vales,
e para ver se a vinha lançado flor
e se as romãs tinham brotado.
Eu não sabia onde estavas
e minha alma ficou toda perturbada
por causa dos carros de Aminadab.

Volta, volta, ó Sulamita!
Volta para que nós te contemplemos.

Ele
Que verás tu, em Sulamita,
senão o colorido som de danças de um acampamento?   
Como são belos os teus pés nas tuas sandálias, ó filha do príncipe!
A curva de teus quadris assemelha-se a um colar, obra de mãos de artista;
teu umbigo é uma taça torneada, repleta de vinho;
o teu ventre é como um monte de trigo cercado de lírios;
teus seios são como dois filhotes gêmeos de uma gazela;
teu pescoço é como uma torre de marfim;
teus olhos são como as fontes de Hesebon;
teu nariz é como a torre do Líbano, que olha para Damasco;
tua cabeça ergue-se sobre ti como o monte Carmelo;
e os teus cabelos são como a púrpura, e um rei se acha preso aos seus cachos.
Como és bela e graciosa, ó meu amor, ó minhas delícias!
Teu porte assemelha-se ao da palmeira,
e os teus seios, a dois cachos de uvas.
Vou subir à palmeira, disse eu comigo mesmo, e colherei os seus frutos.
Sejam-me os teus seios como cachos da vinha.
E o perfume de tua boca como o odor das maçãs;
teus beijos são como um vinho delicioso que corre para o bem-amado,
umedecendo-lhe os lábios na hora do sono.

Ela
Eu sou para o meu amado o objeto de seus desejos.
Vem, amado meu,
saiamos ao campo, passemos a noite nos pomares;
pela manhã iremos às vinhas, para ver se suas flores se abrem,
se as romãzeiras já estão nascendo.
Ali te darei as minhas carícias.
As mandrágoras exalam o seu perfume;
temos à nossa porta frutos excelentes,
e eu os guardei para ti, meu bem-amado.

Ela

Quem me dera ter-te por irmão,
amamentado aos seios de minha mãe,
para que, encontrando-me fora,
eu te pudesse beijar,
sem que ninguém me desprezasse!
Eu te tomaria e te levaria à casa de mnha mãe:
tu lá me ensinarias,
E eu te daria um copo de vinho delicioso,
e eu licor novo das minhas romãs,
A sua mão esquerda está debaixo da minha cabeça,
e a sua mão direita me abraça.

Ele

Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém,
que não perturbeis o sono de mnha amada
até que ela o queira.


Mulheres

Quem é esta que sobe do deserto,
enebriada de delícias,
apoiada sobre o seu amado?

Ele

Eu te despertei debaixo da macieira;
foi ali que tua mãe de concebeu
Põe-me como um selo sobre o teu coração,
como um selo sobre o teu braço;
porque o amor é forte como a morte,
o selo do aoré tenaz como o inferno,
suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina.
As torrentes não puderam extinguir o amor,
nem os rios teriam forçapara param submergi-lo.
Ainda que um homem dê toda a riqueza de sua casa em troca do amor,
só obteria desprezo como um nada.

Mulheres
A nossa irmã é pequena e não tem seios.
Que faremos nós de nossa irmã no dia em que for pedida em casamento?
Se ela é um muro,
edificaremos sobre ela ameias de prata.
Se é uma porta, fechá-la-emos com batentes de cedro.
 

ELA
Ora, eu sou um muro,
e meus seios são como torres;
por isso sou aos seus olhos uma fonte de alegria.
Foge, amado meu,
foge comigo.
E sê semelhante a uma gazela e ao gamo,
sobre os montes perfumados.

 
Marcos Resende Especial ◦ Índice Geral

Raul de Leoni - Argila

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Nascemos um para o outro, dessa argila

De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs nas carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila...

Às belezas heróicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranquila...

É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis): 

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo
E do teu ventre nasceriam deuses..

 

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Raul de Leoni

(Petrópolis, 30.10.1895 - Itaipava, 21.11.1926)

Sua poesia embora contenha formas antigas e clássicas, é marcada por imperecível modernidade, o que faz dela aperiódica. De todos os poetas brasileiros de estilo tradicional, o único que não sofreu sequer um sopro de menosprezo do assíduo fôlego da "corrente modernista brasileira" foi Raul de Leoni. Seus sonetos, de métricas perfeitas, repletos de metáforas e de concepções filosóficas extraordinárias, corriam nos cadernos de poesia dos moços e moças da época, que compreendiam aqueles versos de palavras doces, que continham, ao mesmo tempo, tanta simplicidade e tanto esclarecimento.

Murilo Rubião - A Armadilha

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Alexandre Saldanha Ribeiro. Desprezou o elevador e seguiu pela escada, apesar da volumosa mala que carregava e do número de andares a serem vencidos. Dez. Não demonstrava pressa, porém o seu rosto denunciava a segurança de uma resolução irrevogável. Já no décimo pavimento, meteu-se por um longo corredor, onde a poeira e detritos emprestavam desagradável aspecto aos ladrilhos. Todas as salas encontravam-se fechadas e delas não escapava qualquer ruído que indicasse presença humana.

Parou diante do último escritório e perdeu algum tempo lendo uma frase, escrita a lápis, na parede. Em seguida passou a mala para a mão esquerda e com a direita experimentou a maçaneta, que custou a girar, como se há muito não fosse utilizada. Mesmo assim não conseguiu franquear a porta, cujo madeiramento empenara. Teve que usar o ombro para forçá-la. E o fez com tamanha violência que ela veio abaixo ruidosamente. Não se impressionou. Estava muito seguro de si para dar importância ao barulho que antecedera a sua entrada numa saleta escura, recendendo a mofo. Percorreu com os olhos os móveis, as paredes. Contrariado, deixou escapar uma praga. Quis voltar ao corredor, a fim de recomeçar a busca, quando deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no chão, mas um terror súbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante sereno, apontava-lhe um revólver. Conservando a arma na direção do intruso, ordenou-lhe que não se afastasse.

Também a Alexandre não interessava fugir, porque jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensação de medo fora passageira e logo substituída por outra mais intensa, ao fitar os olhos do velho. Deles emergia uma penosa tonalidade azul.

Naquela sala tudo respirava bolor, denotava extremo desmazelo, inclusive as esgarçadas roupas do seu solitário ocupante:
— Estava à sua espera — disse, com uma voz macia. Alexandre não deu mostras de ter ouvido, fascinado com o olhar do seu interlocutor. Lembrava-lhe a viagem que fizera pelo mar, algumas palavras duras, num vão de escada. O outro teve que insistir: — Afinal, você veio.


Subtraído bruscamente às recordações, ele fez um esforço violento para não demonstrar espanto: — Ah, esperava-me? — Não aguardou resposta e prosseguiu exaltado, como se de repente viesse à tona uma irritação antiga: — Impossível! Nunca você poderia calcular que eu chegaria hoje, se acabo de desembarcar e ninguém está informado da minha presença na cidade! Você é um farsante, mau farsante. Certamente aplicou sua velha técnica e pôs espias no meu encalço. De outro modo seria difícil descobrir, pois vivo viajando, mudando de lugar e nome. — Não sabia das suas viagens nem dos seus disfarces.
— Então, como fez para adivinhar a data da minha chegada?
— Nada adivinhei. Apenas esperava a sua vinda. Há dois anos, nesta cadeira, na mesma posição em que me encontro, aguardava-o certo de que você viria.
Por instantes, calaram-se. Preparavam-se para golpes mais fundos ou para desvendar o jogo em que se empenhavam.
Alexandre pensou em tomar a iniciativa do ataque, convencido de que somente assim poderia desfazer a placidez do adversário. Este, entretanto, percebeu-lhe a intenção e antecipou-se:
— Antes que me dirija outras perguntas — e sei que tem muitas a fazer-me — quero saber o que aconteceu com Ema.
— Nada — respondeu, procurando dar à voz um tom despreocupado.
— Nada?

Alexandre percebeu a ironia e seus olhos encheram-se de ódio e humilhação. Tentou revidar com um palavrão. Todavia, a firmeza e a tranqüilidade que iam no rosto do outro venceram-no.
— Abandonou-me — deixou escapar, constrangido pela vergonha. E numa tentativa inútil de demonstrar um resto de altivez, acrescentou: — Disso você não sabia! Um leve clarão passou pelo olhar do homem idoso: — Calculava, porém desejava ter certeza.

Começava a escurecer. Um silêncio pesado separava-os e ambos volveram para certas reminiscências que, mesmo contra a vontade deles, sempre os ligariam. O velho guardou a arma. Dos seus lábios desaparecera o sorriso irônico que conservara durante todo o diálogo. Acendeu um cigarro e pensou em formular uma pergunta que, depois, ele julgaria, desnecessária. Alexandre impediu que a fizesse.

Gesticulando, nervoso, aproximara-se da mesa: — Seu caduco, não tem medo que eu aproveite a ocasião para matá-lo. Quero ver sua coragem, agora, sem o revólver. — Não, além de desarmado, você não veio aqui para matar-me. — O que está esperando, então?! — gritou Alexandre. — Mate-me logo! — Não posso. — Não pode ou não quer? — Estou impedido de fazê-lo. Para evitar essa tentação, após tão longa espera, descarreguei toda a carga da arma no teto da sala. 

Alexandre olhou para cima e viu o forro crivado de balas. Ficou confuso. Aos poucos, refazendo-se da surpresa, abandonou-se ao desespero. Correu para uma das janelas e tentou atirar-se através dela. Não a atravessou. Bateu com a cabeça numa fina malha metálica e caiu desmaiado no chão. Ao levantar-se, viu que o velho acabara de fechar a porta e, por baixo dela, iria jogar a chave. Lançou-se na direção dele, disposto a impedi-lo. Era tarde. O outro já concluíra seu intento e divertia-se com o pânico que se apossara do adversário: — Eu esperava que você tentaria o suicídio e tomei precaução de colocar telas de aço nas janelas. A fúria de Alexandre chegara ao auge: — Arrombarei a porta. Jamais me prenderão aqui! — Inútil. Se tivesse reparado nela, saberia que também é de aço. Troquei a antiga por esta. — Gritarei, berrarei! — Não lhe acudirão. Ninguém mais vem a este prédio. Despedi os empregados, despejei os inquilinos. E concluiu, a voz baixa, como se falasse apenas para si mesmo: — Aqui ficaremos: um ano, dez, cem ou mil anos.


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Murilo Eugênio Rubião 
nasceu em Silvestre Ferraz, hoje Carmo de Minas, MG, no ano de 1916. Formado em Direito, foi professor, jornalista, diretor de jornal e rádio (Rádio Inconfidência).
Foi o responsável pela organização do Suplemento Literário do Minas Gerais (1966).
Publicou seu primeiro livro de contos "O Ex-Mágico" em 1947; "A Estrela Vermelha" (1953); "Os Dragões e Outros Contos" (1965); "O Pirotécnico Zacarias" e "O Convidado" (1974); "A Casa do Girassol Vermelho" (1978); e "O Homem do Boné Cinzento e Outras Histórias" (1990).
Teve seus principais contos traduzidos para diversos idiomas, alguns adaptados para o cinema e outros encenados.
Faleceu em Belo Horizonte, em 1991, onde residiu a maior parte de sua vida. 
O texto acima foi extraído do livro "Para Gostar de Ler — Vol. 9 — Contos", Editora Ática — São Paulo, 1984, pág. 17.

Ronald Zomignan Carvalho - Lar

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essa rua é minha rua
essa casa é minha casa
esse é o povo que eu amo
e que traí tanto tempo.
esse céu de madrugadas,
essas vozes da cidade,
essas ruas que anoitecem
sonhos, mortes, serenatas,
tudo isso eu vivo em mim,
tudo isso me pertence.

essa rua é minha rua
em que desfilo meus sonhos,
em que me vejo menino
correndo atrás de uma bola,
em que me vejo poeta
correndo atras de meu sonho,
em que me vejo sonhando
a liberdade de um dia
e tudo isso eu entendo,
é minha língua que falam,
o mais é tudo estrangeiro
e quase nem me interessa

essa rua é minha rua
nessa calçada eu amei,
nessa rua eu me criei,
chorei, brinquei, morrerei.
o mais é muito distante
a minha luta é aqui,
a minha pátria é aqui,
e aqui meu povo que sofre.
aqui tenho minha luta,
minha flauta, minha roupa,
minha verdade amanhã.

essa rua é minha rua,
nela que eu luto e trabalho,
nela eu ensino e discurso,
nela faço meus poemas,
nela eu tenho a namorada,
o pai, a mãe, a esperança.
nela se resume inteiro
tudo o que sonho pra mim:
minha rua companheiro,
com meu povo companheiro,
minha ideia e destino.

essa rua é minha rua,
de cores e amores cheia,
essa casa é minha casa,
de livros e sonhos cheia,
essas coisas livres todas
é o meu sonho de um dia,
a  liberdade sonhada
para essa rua e esse povo
é tudo que hoje eu tenho
é minha luta e me basta.

São Paulo, 1966

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