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Marcos Resende Autores

Marcos Resende Autores

Marcos César - Interior

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Meu grande sonho é morar no interior.


Mas, interior mesmo, onde virgem não é só signo, onde um casal é composto de duas pessoas só, e, o mais surpreendente, sempre um de cada sexo. Interior onde ninguém joga água em cachorros engatados e onde há uma única bicha, por absoluta falta de Ibope.

Eu queria morar numa casinha alugada, com quintal de terra, onde, por algum milagre não esclarecido, sempre tem uma galinha ciscando, um cachorro sarnento, um canário da terra na gaiola de alçapão... uns pés de milho que ninguém plantou e que vão dar palha para o cigarro de fumo de rolo... um pé de bucha para a esfregação do banho... lima da Pérsia, araçá, tamarindo e uvaia.

Quero um interior onde caboclo não use calça jeans, o bar não tenha X-burguer e o sino da igreja não seja estéreo. Quero uma botina rangedeira no chão da terra batida, da pinguinha de alambique, da linguicinha na banha... do causo pra contar, do filho piolhento que usa, como lenço, as costas da mão.

Quero jogar argola no cigarro da quermesse da matriz, arrematar um frango, escrever bilhetinhos de Correio Elegante para a moça pendurada naquela janela. Sim, porque janela do interior tem parapeito e o próprio nome tá dizendo pra que serve.

Quero soltar rojão quando acertar no milhar do bicho, me fantasiar de mascarado no carnaval, comparecer a um velório mensal e me comover até as lágrimas quando na festa da escola, meu filho recitar: “Ah! Que saudade que eu tenho da aurora da minha vida...”.

Ah! Interior! Onde o médico cruza com o caboclo e pergunta: “Como é que vão todos em casa, Bastião?”. E o caboclo responde, envergonhado: “O senhor desculpe, doutor, mas tão todos bem”. Passa o vizinho com uma leitoa no braço, você brinca: “Vai comê uma leitoinha, hein, cumpadi?”. E ele responde: “Já comi. Tô indo devorvê”.

Ah! Interior. Onde todo menino coleciona tampinha de cerveja e maço de cigarro vazio... joga bola no meio da rua... nada pelado no rio... e quando faz 16 anos ganha o direito de ir na casa da Lazinha, dando adeus definitivo às éguas barranqueiras. Interior, onde não há aval, saldo médio, discoteca e fossa. Não, fossa tem, mas tem outro conteúdo.

Nos bailes do interior, na falta de rapazes, moças dançam com moças e continuam sapatinhos. Onde não há violência urbana e toda a literatura erótica fica restrita ao que escreveram da Lúcia na porta do banheiro do cinema. Interior representa essa suprema ventura de ser chamado de "NHÔ"... ter comadres e compadres... acompanhar a banda na romaria cantando “Queremos Deus”...

Vou pro interior e vou de trem. Vou viver no som da viola, no luar do meu sertão, tomando purgante pra afinar o sangue, até morrer como todo mundo: de nó nas tripas, barriga d’água ou dor de peito. Aquele interior bem simples como a sinceridade pura do rapaz que pediu a mão da moça e, na saída, o pai dela, piscando o olho, dá a maior força: “Meu filho, se ela puxou a mãe, ocê ta levando a melhor bunda de Sorocaba!”.

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