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Marcos Resende Autores

Marcos Resende Autores

Geir Campos

Geir Campos 05.jpg


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Cantiga de Acordar Mulher

01.

Vagueio além de seu sono
com alma de marinheiro
feliz de chegar a um ponto
sem previsão de roteiro,
mais tonto de o descobrir
que de lhe ser estrangeiro.
Teu continente a dormir
— pouso de barco ligeiro —
pára os relógios num tempo
avesso a qualquer ponteiro:
nem sei se o fico vivendo
ou se te acordo primeiro.


02.
 

Eu te imagino acordando
para a primeira comunhão do amor.
Teu vestido de rezas (não são rosas)
costuradas por quem
as soube de ouvir também
vais despindo e ficando
com o uniforme natural de nadador;
gesto por gesto, vais passando a perceber
que em teu novo exercício pouco adianta
toda teoria
— como adianta pouco um salva-vidas
a quem prefere, entre dois nados, mergulhar...
Melhor que o nado, o mergulho desvenda
as mais profundas relações de corpo a mar.

03. 

Das vozes que te embalavam
a esperança de menina
moça
guardaste mais, de tanto repisadas,
as perfumadas lições
da nobre arte de agarrar um homem.
De como te fazeres desejada,
amada porventura,
tudo aprendeste: os gestos, os meneios,
a graça de sorrir e de calar.
Hoje tens o teu homem
disposto a desdobrar-se em pão e vinho
para apagar tua fome.
por isso, que lhe hás de dar:
o trigo de tua pele, as uvas de tua boca?
Se sem a ponte do amor, tua lavoura é tão pouca...
Acorda: onde estão as vozes que te ensinaram a amar?

04.

Bom é sorrires, olhar
em mim: não vês
o inimigo, o rival
jamais.
Na caça, não serás
a presa; não serás,
no jogo, a prenda.
Partilharemos, sem meias
medidas,
a espera, o arroubo, o gesto,
o salto, o pouso e o sono
e o gosto desse rir
dentro e fora do tempo
sempre que nova
mente
acordares

05.

Acorda, meu bem, acorda:
são horas de vigiar
feliz quem menos recorda
e faz do tempo passar
monjolo-pêndulo-corda
tocando um relógio de ar
onde o momento concorda
com ser eterno findar!
Acorda, meu bem, acorda
e ajuda teu madrugar:
a mão do dia transborda
de coisa para te dar.

06.

A Morte, inesperada, veio a mim,
sentou-se a meu lado, e disse,
tomando-me entre as mãos como a um brinquedo:
Mais fácil é te admitirem
com teu uniforme de morto,
do que vivente com certas ideias...
Essa lição, repito, foi-me dada de um momento para outro,
e se ora te transmito,
é mais para melhor te governares
na hora em que te imagino despertada:
bom dia


07. 

Se te chamarem flor
toma cuidado:
vê se não é gente que te quer pôr
numa redoma – lindo objeto – a vegetar
alheia a tempo e lugar!
Se te chamarem flor,
acorda e toma cuidado:
olha que te levam para o mesmo lado
de tanto destino mal-aventurado!

08.

Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos.

09.

Um dia te acharás
sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando,
os filhos dormindo em calma…
O espelho te acenará,
te lembrará coisas da mocidade,
coisas da meninice,
te mostrará vindas algumas rugas;
contemplarás o espelho,
o quarto, a casa;
perguntarás por ti mesma,
pelo teu próprio destino
— e o espelho fará silêncio:
será o sinal de estares acordando.
 
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida…
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?

 

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 Da Profissão do Poeta

Operário do canto, me apresento

sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma limpa, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.

Fui chamado a cantar e para tanto
há um mar de som no búzio do meu canto.
Embora a dor ilhada ou coletiva
me doa, antes celebro as coisas belas
que movem o sol e as demais estrelas
— antigos temas que parecem novos
de tão gratos ao meu e aos outros povos.

Meu verso tine como prata boa
pesando na confiança dos bancários;
os empregados no comércio bem
sabem como atender aos que encomendo
e recomendo mais do que ninguém;
aos que funcionam em telefonia
com ou sem fio, rádio, a esses também
sei dizer à distância ou de mais perto
a cifra e o texto no minuto certo;
para os músicos profissionais,
sem castigar o timbre das palavras
modulo frases quase musicais;
para os operadores de cinema
meu verso é filme bom que a luz não queima;
trilho também as estradas de ferro
e chego ao coração dos ferroviários
como um trem sempre exato nos horários;
às equipagens das embarcações
de mares ou de lagos ou de rios
meu verso fala doce e grave como
doce e grave é a taboca dos navios;
nos frigoríficos derrete o gelo
da apatia, se é para derretê-lo,
meu canto a circular nas serpentinas;
à boca da escotilha ou nas esquinas
do cais, o meu recado é força viva
guindando a atenção dos homens da estiva;
desço cantando aos subsolos e às minas
onde outros operários desenterram
o minério de suas artérias finas;
a outros, que dão sua têmpera aos metais,
meu canto ajuda feito um sopro a mais
aflando o fogo em flâmulas vermelhas;
aos colegas que lidam nos jornais
boas noticias dou e, mais do que isso,
jeito de as repetir e divulgar
quando o patrão quisera ser omisso;
à gente miúda, pronta a ser maior,
passo lições de um magistério puro
e o que é dever escrevo a giz no muro;
para os químicos sei fórmulas novas
que os mártires elaboram nas covas...
e a todos que trabalham vai assim
meu canto sugerindo meio e fim.


Marcadas as minhas horas de ofício,
de dia em sombras pelo chão e à noite
no rútilo diagrama das estrelas,
só quem ama o trabalho sabe vê-las.

Seja domingo ou dia de semana,
mais do que as horas neutras do repouso
confortam-me os encargos rotineiros;
meu descanso é confiar nos companheiros.

Nunca me participam por escrito
ou verbalmente os ócios que mereço,
mas sempre gozo bem o merecido:
pois o ócio não é ofício pelo avesso?
É quando fio o verso; depois teço.

Em férias tenho a paga de saber
lembrado o verso meu por quem o inspira;
é como se outra mão tangesse a lira

Laborando entro os pontos cardinais,
de norte a sul, de leste a oeste, vou
cobrando aqui e ali quanto me basta:
o privilégio de seguir cantando.
(Imposto é cuidar onde e como e quando.)

Trabalho à noite e sem revezamentos.
Se há mais quem cante, cantaremos juntos;
sem se tornar com isso menos pura
a voz sobe uma oitava na mistura.

Mesmo no escuro, canto. Ao vento e à chuva,
canto. Perigo à vista, canto sempre;
e é clara luz e um ar nunca viciado
e sol no inverno e fresca no verão,
meu canto, e sabe a flores se é de flores
e a frutos se é de frutos a estação.
Só não me esforço à luz artificial
com que a má fé de alguns aos mais deslumbra
servindo-lhes por luz o que é penumbra;
também quando o ar parece rarefeito
a lira engasga, o verso perde o jeito.

Não canto onde não seja o sonho livre,
onde não haja ouvidos limpos e almas
afeitas a escutar sem preconceito.
Para enganar o tempo ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas,
não canto...

Canto apenas quando dança,
nos olhos dos que me ouvem, a esperança.

Meu ofício é cantando revelar
a palavra que serve aos companheiros;
mas se preciso for calar o canto
e em fainas diferentes me aplicar
unindo a outros meu braço prevenido,
mais serviço que houver será servido.

 

Zunzum

Ela tem dois amigos, dirá um.
Ele é um amigo do casal, dirá
Outro. E o que é dito aqui faz eco lá,
E a cada voz amplia-se o zunzum.


Diz-que-diz-que é a maneira mais comum
de se fingir que entende o que não dá
Para entender e assim não chegará
A entendimento verdadeiramente algum.

Quem quiser sobre nós saber ao certo
O que de fato existe, chegue perto
E espie bem, sem medo ou preconceito:

Dois homens há de ver e uma mulher
E o bem que cada qual aos outros quer
Num exemplo de amor quase perfeito.

 

Tarefa

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano

 

Réquiem Para Um Condenado

Não é de hoje que se matam homens
em nome da justiça, Caryl Chessman,
e as maneiras dependem, caro Chessman
das idiossincrasias dos verdugos:
houve tempo em que a morte era torneio 
em circo de gladiadores 
ou diversão na arena com leões, 
e houve a morte na cruz, o empalamento, 
a fogueira das Santa Inquisição, 
a forca, o pelourinho, a guilhotina, 
o muro emparelhando carabinas, 
tiro simples na nuca, morte múltipla 
em câmaras de gás, morte singela 
numa cadeira elétrica 
— requintes 
da guerra contra a vida em plena paz... 
isso sem cogitar da morte escusa, 
doméstica, abafada, sem jornais 
— do nadador trancado a pernoitar 
no calabouço onde pernoita o mar, 
do preso que se atira do sobrado 
ao pétreo pátio adrede preparado... 
São mortes 
espetaculares umas, 
veladas outras, planejadas todas; 
e quanto mais se diz civilizada 
a sociedade (com seus promotores 
e os advogados e os legisladores 
e os hermeneutas e as egrégias cortes 
e as togas e as polícias e os carrascos) 
tanto menos há de ostentar a morte 
seu frio gume e sua boca de asco. 

E assim foi, Caryl Chessman, 
teu fim cercado de delicadezas, 
com jantar à la carte e sobremesa, 
palitos, guardanapos, cafezinho, 
tudo a amansar o morredor sozinho 
em sua última noite social. 
Manhã: tapete, padres, guardiães 
solícitos, repórteres, visitas, 
gente de longe a espiar pelos vidros 
à prova de bala para te ver 
encerrando tão brava resistência 
nesse octógno verde onde se apura 
o deus civil contra a própria criatura. 
E que diplomacias, que cuidados 
em te fazer partir de braços dados 
com uma poltrona — vazia de sexo 
como a sentença era falta de nexo. 
Depois os 
limpos 
grãos de cianureto 
desenrolando em ácido os vapores 
letais: 
nem disfarçaste os estertores 
da carne tesa após 12 anos de incerteza. 

O fim 
rápido, o forno crematório, 
papel timbrado em seco relatório, 
cinzas para a cidade onde nasceste, 
desofícios de um credo que não leste... 

E em 
todo o mundo 
houve quem protestasse, 
chorasse, 
discutisse, 
apedrejasse, 
consulados em turbas exaltadas: 
quantas dessas pessoas, entre tantas, 
que a voz hoje levantam a apoiar-te, 
cumpririam a sério a sua parte 
na luta contra os erros consagrados 
que te plasmaram entre os condenados 
a essa e mais outras formas de vingança 
de uma 
que se diz 
civilização 
incapaz de salvar uma criança? 

 

Geir Nuffer Campos nasceu em São José do Calçado (ES) no dia 28/02/1924 e morreu no Rio, a 8 de maio de 1999, com 75 anos.
Foi piloto da marinha mercante e ex-combatente civil na Segunda Guerra Mundial.
Formou-se em Direção Teatral (FEFIERJ-MEC, Rio), mestre e doutor em Comunicação Social pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da qual foi professor. Sempre engajado nas lutas de seu tempo, foi um dos fundadores do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro e da Associação Brasileira de Tradutores, hoje Sindicato Nacional dos Tradutores, de que foi presidente. 

Jornalista, colaborou no "Diário Carioca", "Correio da Manhã", "Última Hora", "O Estado", "Diário de Notícias", "Para Todos", Letras Fluminenses", "Jornal de Letras" e no jornal "A Ordem", de sua terra natal.

Radialista, apresentou na Rádio MEC, por mais de 20 anos, o programa "Poesia Viva".

 

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