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Marcos Resende Autores

Marcos Resende Autores

Augusto Frederico Schmidt

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Apocalipse


As velas estão abertas como luzes.
As ondas crespas cantam porque o vento as afogou.
As estrelas estão dependuradas no céu e oscilam.
Nós as veremos descer ao mar como lágrimas.
As estrelas frias se desprenderão do céu
E ficarão boiando, as mãos brancas inertes, sobre as águas frias.
As estrelas serão arrastadas pelas correntes boiando nas águas imensas.
Seus olhos estarão fechados docemente
E seus seios se elevarão gelados e  enormes
Sobre o escuro do tempo.

Soneto Cigano

Lembra-me sempre a viagem, a grande, a estranha viagem.
As mulheres brincavam e riam ao pé das enormes fogueiras.
Rostos da cor do bronze, olhares misteriosos,
E mãos escuras para todos os misteres.

Lembra-me sempre a viagem, as estradas perdidas
Por onde seguíamos atrás das auroras ingênuas
Que corriam cantando, e atrás das horas fugidias
— Horas que pareciam dançar ao ruído de pandeiros.


Era tudo uma grande inocência e descuido.
O futuro sombrio, as ambições, os medos,
Não me lembro de os ter sentido nesses tempos.

Colhíamos, então, flores e frutos nos caminhos,
Amávamos o amor nas morenas mulheres,
E adormecíamos à mercê dos ventos e das chuvas.

Lembrança

As velas estão abertas como luzes.
Todos os que estão neste cinema agora,
Neste cinema alegre, 
Um dia hão de morrer também: 
Nos cabides as roupas dos mortos 
         penderão tristemente.

Os olhos de todos os que assistem as fitas agora,
Se fecharão um dia trágica e dolorosamente.
E todos os homens medíocres
         se elevarão no mistério doloroso da morte.
Todos um dia partirão —
mesmo os que têm mais apego às coisas do mundo:
Os abastados e risonhos
Os estáveis na vida
Os namorados felizes
As crianças que procuram compreender — 
Todos hão de derramar a última lágrima.

No entanto parece que os frequentadores deste cinema
Estão perfeitamente deslembrados de que terão de morrer
— Porque em toda a sala escura há um grande ritmo de esquecimento e equilíbrio.

 

O Grande Momento

As velas estão abertas como luzes.
A varanda era batida pelos ventos do mar...
As árvores tinham flores que desciam para a morte, com a lentidão das lágrimas.  
Veleiros seguiam para crepúsculos com as asas cansadas e brancas se despedindo,  
O tempo fugia com uma doçura jamais de novo experimentada  
Mas o grande momento era quando os meus olhos conseguiam  
      entrar pela noite fresca dos seus olhos....

 

Noiva

As velas estão abertas como luzes.
As velas estão abertas como luzes.
Noiva, acaso és, a real afogada?  
És a louca do rio, noiva?  
Se não és, por que cantas assim  
E te enfeitas de flores?  
Se não és, noiva, por que morres?  
Por que levam teu corpo branco  
Para tão longe — noiva — para tão longe?  
Se tu és  a que eu conheci menina  
Por que não estás dormindo sobre o meu peito, sossegada, noiva?  

 

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