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Marcos Resende Autores

Marcos Resende Autores

Ascenso Ferreira 01

Ascenços.jpg Índice Geral ◦ Home

Misticismo

Na paisagem da rua calma,

tu vinhas vindo… vinhas vindo…,

e teu vestido era tão lindo

que parecia que tu vinhas envolvida na tu’alma…

Alma encantada;

ama lavada

e como que posta ao sol para corar…

E que mãos misteriosas terão feito o teu vestido,

que até parece o de Maria Borralheira,

quando foi se casar…!

─ Certamente foi tecido

pelas mãos de uma estrela fiandeira,

com fios de luz, no tear do luar…

no tear do luar…

O teu vestido era tão lindo que parece o de Maria Borralheira

quando foi se casar…

─ “Cor do mar com todos os peixinhos…!

─ Cor do céu com todas as estrelas…!

E vinhas vindo… vinhas vindo…

na paisagem da rua calma,

e o teu vestido era tão lindo

que parece que tu vinhas envolvida na tu’alma…

O Gênio da Raça

Eu vi o Gênio da Raça!!!

(Aposto como vocês estão pensando que eu vou

falar de Ruy Barbosa.).

Qual!

O Gênio da Raça que eu vi

foi aquela mulatinha chocolate

fazendo o passo de siricongado

na terça-feira de carnaval!

Martelo

Teu corpo é branquinho como a polpa do ingá maduro!

Teu seio é macio como a polpa do ingá maduro!

─ E há doçura de grã-fina no teu beijo, que é todo ingá…

─ E há doçura de grã-fina no teu beijo, que é todo ingá…

Por isso mesmo,

Minha Maria,

Eu, como a abelha

do aripuá

pra quem doçura

é sempre pouca,

só que quero o favo

de tua boca…

Há veludos de imbaúba nessas redes de teus olhos,

que convidam, preguiçosas, a gente para o descanso,

um descanso à beira-rio como a ingazeira nos dá…

─ Um descanso à beira-rio como a ingazeira nos dá!

Por isso mesmo,

minha Maria,

de noite e dia

nessa corrida

triste de ganso,

para descanso

e gozos meus,

só quero a rede

dos olhos teus!

Só quero a rede macia dos teus olhos!

Só quero a doçura de grã-fina do teu beijo…!

Só quero a macieza do teu corpo da cor do ingá…

E na rede eu me deito,

cochilo e descanso,

tenho um sono manso

que me faz sonhar…

Sonho que és ingá

de doçura louca,

que na mina boca

vem se desmanchar,

que na minha boca

vem se desmanchar

Xenhenhém Nº 2

Em meio às minhas muitas dores

talvez maiores do que o mundo,

surges, às vezes, um segundo,

cheia de pérfidos langores.

Chegas sutil e sem rumores…

E até sinto o odor profundo

No qual eu sôfrego me inundo

─ Pária do amor, sonhando amores.

Depois, tu falas não sei donde…

És como um eco que responde

Mas, sempre e sempre, além… além…

Súbito, encontro a casa oca.

Não estás! ─ Meu Deus, que coisa louca,

Só é na vida um xenhenhém!

Fazendeiro

─ Ô Maria! Maria!

Compadre Cazuza vem almoçar

amanhã aqui em casa…

Que é que tu preparaste pra ele?!

─ Eu matei uma galinha,

matei um pato,

matei um peru,

mandei matar um cevado…

─ Oxente, mulher!

Tu estás pensando que compadre

Cazuza é pinto?!

Manda matar um boi!!!

Filosofia

Hora de comer ─ comer!

Hora de dormir ─ dormir!

Hora de vadiar ─ vadiar!

Hora de trabalhar?

─ Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

Minha Escola

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.

E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;

Complicado como as Matemáticas;

Inacessível como Os Lusíadas de Camões!

À sua porta eu estava sempre hesitante...

De um lado a vida... ─ A minha adorável vida de criança:

Pinhões... Papagaios... Carreiras ao sol...

Vôos de trapézio à sombra da mangueira!

Saltos da ingazeira pra dentro do rio...

Jogos de castanhas...

─ O meu engenho de barro de fazer mel!

Do outro lado, aquela tortura:

"As armas e os barões assinalados!"

─ Quantas orações?

─ Qual é o maior rio da China?

─ A2 + 2AB = quanto?

─ Que é curvilíneo, convexo?

─ Menino, venha dar sua lição de retórica!

─ "Eu começo, atenienses, invocando

a proteção dos deuses do Olimpo

para os destinos da Grécia!"

─ Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!

─ Agora, a de francês:

─ "Quand le christianisme avait apparu sur la terre..."

─ Basta!

─ Hoje temos sabatina...

─ O argumento é a bolo!

─ Qual é a distância da Terra ao Sol?

─ ?!!

─ Não sabe? Passe a mão à palmatória!

─ Bem, amanhã quero isso de cor...

Felizmente, à boca da noite,

eu tinha uma velha que me contava histórias...

Lindas histórias do reino da Mãe-d'Água...

E me ensinava a tomar a bênção à lua nova.

Sucessão de São Pedro

─ Seu vigário!

Está aqui esta galinha gorda

que eu trouxe pro mártir São Sebastião!

— Está falando com ele!

— Está falando com ele!

Noturno

Sozinho

nas ruas desertas

do velho Recife

que atrás do arruado

moderno ficou...

criança de novo

eu sinto que sou:

— Que diabo tu vieste fazer aqui, Ascenso?

O rio soturno,

tremendo de frio,

com os dentes batendo

nas pedras do cais,

tomado de susto

sem poder falar...

o rio tem coisas

para me contar:

— Corre senão o Pai-do-Poço te pega, condenado!

Das casas fechadas

e mal-assombradas

com as caras tisnadas

que o incêndio queimou

pelas janelas esburacadas

eu sinto, tremendo,

que um olho de fogo

medonho me olha:

— Olha que o Papa-Figo te agarra, desgraçado!

Dos brutos guindastes

de vultos enormes

ainda maiores

nessa escuridão...

os braços de ferro,

pesados e longos,

parece quererem

suster-me no chão!

Ai! Eu tenho medo dos guindastes,

Por causa daquele bicão!

Sozinho, de noite,

nas ruas desertas

do velho Recife

que atrás do arruado

moderno ficou...

criança de novo

eu sinto que sou:

— Larga de ser vagabundo, Ascenso!

A Força da Lua

Não te chegues assim, para mim...

Ó Maria!

Ai! Não te chegues não...

A lua cheia tem muita força,

Maria!

— E o luar sempre foi a nossa perdição...

O vento que assopra,

assopra com força...

Há forças nas águas,

— Repara a maré!

E há forças também ocultas na gente,

talvez que as das águas maiores até...

Não te chegues assim, para mim...

Ó Maria!

Ai! Não te chegues não...

Há força nas águas, há força nos ventos

e forças que em nós ocultas estão...

A lua cheia tem força muita, Maria!

E o luar sempre foi a nossa perdição!

Reisado

"Gunvernadô destes Brasi

dai-me licença pra divirti..."

— "Ô de casa! — Ô de fora!

— Manjerona quem 'stá aí?"

— Ou é um cravo, ou é uma rosa

— Ou a fulô do bogari!...

Governadora de meu pensar,

dá-me licença para contar:

Naquele dia, minha formosa,

quando teu volto, de longe, vi,

disse minh'alma, por ti ansiosa:

ou é um cravo, ou é uma rosa

ou é a flor do bogari...

Naquele dia, minha formosa,

quando teu vulto de longe, vi,

disse minh'alma, por ti ansiosa;

ou é um cravo, ou é uma rosa

ou é a flor do bogari...

Hoje te mando essa alma ansiosa...

Ai! se ao senti-la perto de ti.

Também dissesses, minha formosa,

— ou é um cravo, ou é uma rosa,

ou a flor do bogari...

HIstória Pátria

Plantando mandioca, plantando feijão,

colhendo café, borracha, cacau.

comendo panonha, canjica, mngau

rezamdp de tarde mpssa ave-maria,

Negramente...

    Caboclamente...

        Portuguesamente...

A gente vivia.

De festas no ano só quatro é que havia

entrudo e Natal, Quaresma e Sanjoão!

Mas tudo emendava num só carrilhão!

E a gente vadiava, dançava, comia...

Negramente...

    Caboclamente...

        Portuguesamente...

Todo santo dia!

O Rei, entretanto, não era da terra!

E gente pra Europa mandou-se estudar...

Gentinha idiota que trouxe a mania

de nos transformar

de noite pro dia...

A gente que tão

Negramente...

    Caboclamente...

        Portuguesamente...

Vivia!

(E foi um dia a nossa civilização

tão fácil de criar!)

Passou-se a pensar,

passou-se a cantar

passou-se a dançar

passou-se a comer,

passou-se a vestir,

passou-se a sentir,

tal como Paris

pensava,

cantava,

comia,

sentia...

A gente que tão

Negramente...

    Caboclamente...

        Portuguesamente...

Vivia!

Nordeste

O ferreiro malhando no topo das baraúnas.
Nas lombadas da serra o sol é de lascar...
Nem uma folha só fazendo movimento!...

           — Nana! Ô Nana!
           — Inhor!
           — Chega me abanar...

Pouco a pouco, porém, vem vindo um frio lento
trazido pelas mãos de moça do luar...

Que gozo nos coqueiros acarinhados pelo vento!...

          — Nana! Ô Nana!
          — Inhor!
          — Chega me esquentar... 

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