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Marcos Resende Autores

Marcos Resende Autores

Ascenso Ferreira 03

Ascenso Ferreira 06.jpg

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O "Verde"

Meu boi surubim, a serra está cachimbando!
Ainda ontem, de tardinha, o sabiá estava cantando
Aquela moda que parece uma cantiga de ninar...

Aquela modaque parece uma cantiga de ninar...

"Chove, chuva!
Pra nascer capim!
Pra boi sujar!
Pra sabiá ciscar!
Pra fazer seu ninho!
Pra pôr seus ovos!
Pra criar seus filhinhos!
Chove, chuva:
Vááá!"

No peito das vacas mansas o leite estava minguando...
os meninos, lá por casa, coitados, se lastimado,
todos eles, à mãe deles só pedindo pra mamar...

— Todos eles, à mãe deles só pedindo pra mamar...

O Rancho do Navio torrado estava ficando!
No cercado, palmatória depressinha se acabando.
Daqui a três-quinze-dias grande era o nosso penar!

— Daqui a três-quinze-dias grande era o nosso penar!

Porém, meu boi surubim, a serra está cachimbando!
O "Verde" já vem aí, que o sabiá estava cantando"
aquela moda que parece uma cantiga de ninar...

Aquela moda que parece uma cantiga de ninar...

"Chove, chuva!
Pra nascer capim!
Pra boi sujar!
Pra sabiá ciscar!
Pra fazer seu ninho!
Pra pôr seus ovos!
Pra criar seus filhinhos!
Chove, chuva:
Vááá!"
 

Predestinação

— Entra pra dentro, Chiquinha!
Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que você vai
Você acaba prostituta!

E ela:
— Deus te ouça, minha mãe...
Deus te ouça.

Cinema

Mas, dona Nina,
Aquilo é que é o tal de cinema?

O homem saiu atrás da moça,
pega aqui, pega acolá,
pega aqui, pega acolá,
até que pegou-la.
Pegou-la e sustentou-la!
Danou-lhe beijo,
danou-lhe beijo,
danou-lhe beijo!...

Depois entraram pra dentro dum quarto!
Fez-se aquela escuridão
e só se viu o lençol bulindo...

Me diga uma coisa, D. Nina:
isso presta pra moça ver?!...

Maracatu

Zabumba de bombos
estouros de bombas,
batuques de ingonos,
cantigas de banzo,
rangir de ganzás...

— Loanda, Looanda, aondes estás?
Loanda, Loanda, aonde estás.

As luas crescentes
de espelhos luzentes,
colares e pentes,
queixares e dentes de maracajás...

— Loanda, Looanda, aondes estás?
Loanda, Loanda, aonde estás.

A balsa no rio
cai no corropio,
faz passo macio,
mas, toma desvio
que nunca sonhou...

— Loanda, Looanda, aondes estás?
Loanda, Loanda, aonde estás.

Boca da Noite
Já não brincam como crianças as árvores verdes,
as lindas árvores verdes de minha terra tropical!
Meninas obedientes vão cedo para o agasalho
e vestem o timão pardacento das sombras!

No rio lerdo as baronesas movem-se lentas.
Tão lentas que até parecem paradas
— As baronesas que vao a caminho do mar.

Cantam as araquãs na mata silenciosa
Onde há rumores confusos de vozes estranhas...
— Talvez pássaros que se aninham
— Talvez caiporas a gritar!
Ai! Eu tenho medo das caiporas
que andam pelas florestas a vagar...

No azul cansado brilha primeiro o olho vivo da Papa-Ceia
E eu vejo a boca da Noite
Mastigando o sol
Como um fruto passado.

Misticismo
Na passagem da rua calma,
tu vinhas vindo... vinhas vindo
e o teu vestido era tão lindo
que parece que tu vinhas envolvida na tu'alma...

Alma encantada;
alma lavada
e como que posta ao sol para corar...
E que mãos misteriosas terão feito o teu vestido,
que até parece o de Maria Borralheira,
quando foi se casar...

— Certamente foi tecido
pelas mãos de uma estrela fiandeira
com fios de luz, no tear do luar...
no tear do luar...

O teu vestido que parece o de Maria Borralheira,
quando foi se casar...

— "Cor do mar com todos os peixinhos!...
— Cor do céu com todas as estrelas!"

E vinhas vindo... vinhas vindo...
na paisagem da rua calma,
e o teu vestido era tão lindo
que parece que tu vinhas envolvida na tu'alma...

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