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Marcos Resende Autores

Marcos Resende Autores

Ascenso Ferreira 02

Ascenços (1).jpg 

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A Mula de Padre

Um dia no engenho

já tarde da noite

que estava tão preta

como carvão...

a gente falava de assombração:

— O avô de Zé Pinga-Fogo

amanheceu morto na mata

com o peito varado

pela canela do Pé-de-Espeto!

O cachorro de Brabo-Manso

levou sexta-feira passada

uma surra das caiporas!

— A Mula-de-Padre quis beber o sangue

da mulher de Chico Lolão...

Na noite tão preta como carvão

a gente falava de assombração!

Lá, embaixo, a almanjarra,

a rara almanjarra,

gemia e rangia que o Engenho Alegria

é bom moedor...

Eh, Andorinha!

Eh, Moça Branca!

Eh, Beija-Flor...

Pela bagageira

os bois ruminavam

e as éguas pastavam,

esperando a vez

de entrar no rojão...

Foi quando se deu

a coisa esquisita

mordendo, rinchando,

às popas e aos pulos,

se pondo de pé

com artes do Cão,

surgiu uma besta sem dali não...

— Atalha a bicha, Baraúna!

— Sustenta o laço, Maracanã!

E  a besta agarrada

entrou na almanjarra,

tocou-se-lhe a peia

até de manhã...

E depois que ela foi solta

entupiu no oco do mundo!

Num abrir e fechar d'olhos

a maldita se encantou...

De tardinha,

gente vinda

da cidade trouxe a nova

de que ama

de seu Padre

Serrador

amanhecera tão surrada

que causava compaixão!

Na noite tão preta como carvão,

a gente falava de assombração!.

Meu Carnaval

Meu carnaval, tão longe, tão distante

mas tão perto de mim pela recordação.

Papel picadinho,

três quilos de massa,

seis limas de cheio,

três em cada mão...

— Chiquinha danou-se

porque eu quebrei uma nos peitos dela!

Agora o cavalo corria... corria...

(Passear a cavalo era a sedução).

Chegando na porta de minha Maria,

riscava o cavalo, saltava no chão.

E ela, aplaudindo, sorria... sorria...

me dando furtivo aperto de mão...

Meu carnaval tão longe, tão distante

mas tão perto de mim pela recordação...

Que é feito de ti? O atual só resume

tremendo delírio de gozo exterior!

Tiveste um destino de lança-perfume,

viraste alcanfor... viraste alcanfor...

Toré

Os dois maracás

um fino e outro grosso

fazem alvoroço

nas mãos do Pagé.

— Toré

— Toré

Bambus enfeitados

compridos e ocos

produzem  sons roucos

de querequexé!

— Toré!

— Toré!

Lá vem a asa-branca

no espaço voando

vem alto gritando

Meu Deus, o que é?

— Toré!

— Toré!

É o Caracará

que está na floresta

vai ver minha besta

de pau catolé...

— Toré!

— Toré! 

Cabocla bonita

de passo quebrado

teu beiço encarnado

parece um café!

— Toré!

— Toré!

Pra te ter, cabocla

na minha maloca,

fiando na roca,

torrando pipoca,

eu entro na toca

e mato a onça a quicé!

— Toré!

— Toré!

A Copa do Mundo

No meio daquela confusão toda

De rádios berrando,

Fogos pipocando,

Bêbados cantando!

Maria embocou pela porta de Chico Tenório a dentro

Do qual se encontrava muito tempo of-side,

E exclamou alucinada:

— Chiquinho, meu bem,

O Brasil ganhou a Copa do Mundo,

Vamos também fazer nosso goal, meu amor!

A Festa

O altar da igreja armado à porta,

Tão lindo como eu nunca vi,

Cheirava a cravos, cheirava a rosas,

Cheirava a flor de bogari...

As barraquinhas adornadas

Com lanternas de muitas cores

Vendiam coisas cheias de odores

Broas, pastéis, doces, geladas

Jinjibirra, abacaxis...

Um pouco abaixo o cosmorama,

Onde espantado a gente via,

Quadros de guerras encarniçadas,

Vistas de terras encantadas

— Terras da Oropa, França e Bahia.

A gente ia pro carrossel

nos seus cavalos esquipar!

O realejo triste gemia,

mas, dentro de nós quanta alegria.

E, quando o carrossel se ia,

Ai, que tristeza de matar!

Ganhava a gente roupas novas,

Novo sapato, novo chapéu,

E tudo nossos pais compravam

com carinho especial;

Nada de Papais Noéis!

Nada de árvore de Natal!

Sinos tocavam dentro da noite,

Fogos subiam rasgando o céu!

Jesus brilha de luz num halo

— "Meia noite canta o galo

Dizendo — Cristo nasceu!"

Hoje tudo broma, falsete,

Não sendo para admirar,

Que o rádio diga sobre o presepe,

Que Cristo estava up-to-date

E Nossa Senhora very kar...

Minha filhinha, Papai Noel,

É uma figura tragicômica!

Não te iludas com seus enredos

Pois que no meio de seus brinquedos,

Virá um dia a bomba atômica!

O altar armado da igreja à porta,

Tão lindo como eu nunca vi,

Cheirava a cravos, cheirava a rosas,

Cheirava a flor do bogari.

Trem de Alagoas

O sino bate,

o condutor apita o apito,

solta o trem de ferro um grito,

põe-se logo a caminhar...

— Vou danado pra Catende

vou danado pra Catende

vou danado pra Catende

com vontade de chegar...

Mergulham mocambos

nos mangues molhados

moleques mulatos

vêm vê-lo passar.

— Adeus!

— Adeus!

Mangueiras, coqueiros

cajueiros em flor,

cajueiros com frutos

já bons de chupar...

Adeus, morena do cabelo cacheado.

— Vou danado pra Catende

vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende

com vontade de chegar...

Mangabas maduras,

mamões amarelos

mamões amarelos

que mostram, molengos

as mamas macias

pra a gente mamar...

— Vou danado pra Catende

vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende

com vontade de chegar...

Na boca da mata

há furnas incríveis

que em coisas terríveis

nos fazem pensar:

— Ali dorme o Pai-da-Mata!

— Ali é a casa das caiporas!

— Vou danado pra Catende

vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende

com vontade de chegar...

Meu Deus! Já deixamos

a praia tão longe...

No entanto, avistamos

bem perto outro mar...

Danou-se! Se move,

se aquela faz onda...

Que nada! É um partido

Já bom de cortar...

— Vou danado pra Catende

vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende

com vontade de chegar...

Cana-caiana,

cana-roxa,

cana-fita,

cada qual a mais bonita,

todas boas de chupar...

Adeus, morena de cabelo cacheado!

— Ali dorme o Pai-da-Mata!

— Ali é a casa das caiporas!

—  Vou danado pra Catende

vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende

com vontade de chegar...

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